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01 setembro 2007

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O Barco das Religiões

Era uma vez um povo que vivia em um mar de possibilidades...
Neste mar este povo foi lançado sem saber nadar bem e sem rumo que os orientasse. De repente, eles encontraram uma embarcação. Ela foi a “salvação” que procuravam, já que eles nadavam sem rumo e sob o risco de se afogarem. Subiram à embarcação e sentiram-se aliviados e protegidos, porque com eles seguiam outras pessoas que também subiram à mesma embarcação para salvarem-se.
Era confortante e seguro estar junto com outros que buscavam o mesmo destino que era a “terra firme”. A “terra firme” parecia uma promessa distante, que nunca haviam visto mas que sentiam que existia e pela qual perseveravam. Então seguiram todos no mesmo barco por tempos e tempos.
Este barco que os pareceu maravilhoso, grande e portentoso, agora era o ambiente comum. Passado o deslumbramento, assim como passa o deslumbramento das paixões, deram-se conta de que não se trata de uma embarcação tão segura assim. Mais que isso, ela possuía muitas falhas em seu casco, muitas brechas que tornavam lento o seu navegar e incerto o seu itinerário. Aos poucos alguns deles começaram a mergulhar no mar de vez em quando, a fazer rápidas excussões para fora da embarcação e aprender a nadar com agilidade. Outros mais medrosos preferiam não arriscar estes nados audazes e permaneciam na segurança da embarcação ainda que ela não fosse tão segura assim.
Os que habitualmente pulavam para fora do barco, gradualmente adquiriram a capacidade de nadar habilmente e às vezes era monótono ficarem restritos ao barco, principalmente quando se conseguia nadar mais rápido que o grande e pesado navio. O barco antes nadava com mais agilidade, mas agora ele estava sobrecarregado de náufragos errantes e acomodados que se recusam a fazer sua manutenção.
Os náufragos errantes fizeram regras e políticas de como viver dentro do grande e pesado barco e aquele foi se tornando um lugar insuportável, mas os tripulantes, ou aqueles que se elegeram tripulantes, disseram que o grande barco é o único meio de chegar à “terra firme” e que para os proteger, a partir de então, todos estariam proibidos de fazer excursões de natação ao mar.
– O mar – diziam os tripulantes da nau – é um lugar perigoso e cheio de surpresas, é preciso que nos protejamos no grande barco.
Aqueles que costumavam nadar se sentiam presos e pesados. Gostavam dos amigos que fizeram no barco, mesmo daqueles que tinham medo de aprender a nadar e por eles também permaneciam no barco. O pior foi que, ao observarem o barco por fora, os nadadores viam que a maresia carcomia seu casco e que mais cedo ou mais tarde ele naufragaria lançando todos ao mar. E agora? O que seria dos amigos que não sabiam nadar? Afogar-se-iam ou seriam devorados pelos animais perigosos? Será que encontraríamos a “terra firme” antes de o grande barco naufragar?
Ah...! A “terra firme” parecia uma promessa tão distante... para todos os lados só víamos o vazio desolador das águas sem fim e depois de todo esse tempo não parecíamos estar perto. Nem sequer tínhamos certeza se nossos instrumentos de navegação eram precisos. E se estivéssemos navegando em círculos?
Então um dia, corajosamente, um grupo de nadadores de vanguarda decidiu abandonar o barco. Eles já estavam muito treinados, conseguiam nadar bem mais rápido que o barco e sem se cansar. Já estavam preparados para explorar outros rumos adiante e tentar salvar aqueles que ficaram no barco antes que ele naufragasse.
Os nadadores de vanguarda também não suportavam mais viver com as mesquinharias dos que viviam no barco; as disputas mesquinhas de poder, os simulacros e hipocrisias, as questões menores. O pior era que os tripulantes, desfrutando de condição cômoda e privilegiada, pareciam não se importar mais em atingir a “terra firme”. Eles também já tinham, sem se dar conta, perdido a esperança de chegar a “terra firme” e, por outro lado, sabiam que se chegassem lá, todas as regras, leis e hierarquias perderiam o sentido. Uma vez na “terra firme”, não existiriam mais cargos e poder, todos estariam livres da vida no barco. E os demais que viviam no barco, tinham medo de nadar e se afogar e viviam infelizes deixando que o barco decidisse seu próprio rumo, pois mesmo que o barco não levasse a lugar nenhum, pelo menos eles estariam todos juntos e morreriam todos juntos. Nada poderia ser pior que estar sozinho na imensidão do mar vazio, as pessoas preferem a morte à solidão.
Por isso os tripulantes do grande barco chamaram os nadadores de vanguarda de desertores e hereges. Mas os nadadores não se importavam mais com o que pensavam os tripulantes. Não foi fácil para os nadadores deixarem o navio que lhes serviu de salvação, eles se lembraram de quando estavam perdidos no mar, fracos e sem mal saber nadar e o navio apareceu para lhes oferecer apoio e fortalecimento. Mas agora que estavam mais fortes e independentes podiam seguir seu caminho mesmo deixando para trás aqueles que amavam.
Os nadadores de vanguarda saíram mar adentro, nadando alegremente por mares então desconhecidos. Ao atravessar os limites do horizonte, ao atravessarem tempestades e escaparem de animais perigosos, depois de se sentirem perdidos e sozinhos, eles oraram ao deus da “terra firme” para que dessem alguma solução, para que pudessem voltar a tempo de salvar aqueles que estavam com medo no grande barco sem acreditar que ele naufragaria lançando todos ao mar.
Eis que então apareceu uma bela criatura marinha. Ela parecia humana, mas era muito mais bela que as criaturas humanas. Seu corpo brilhava e ela podia nadar com a agilidade que nenhum dos nadadores de vanguarda conseguia nadar. E então um dos nadadores perguntou:
- Que tipo de criatura é você? E como consegue viver sem uma embarcação ou longe da “terra firme”?
- Sou uma criatura igual a você, mas vim de outra embarcação mais antiga. Eu e meus companheiros já deixamos nosso barco há muitos milênios. Venham comigo e eu vos mostrarei. Aquele ente divino conduziu os nadadores para conhecerem outros entes parecidos com ele. Os nadadores descobriram que eles eram muito mais antigos que seu grupo e estavam muito mais adaptados à água. Eles podiam viver dentro e fora d’água e guardavam muitas estórias de outros povos ainda mais antigos que eles que dominavam todos os mares. Os nadadores de vanguarda descobriram que aquelas criaturas eram diferentes porque haviam se adaptado à vida no mar, viviam no mar como se fosse a “terra firme”, estavam a vontade e felizes.
Naquele momento um dos nadadores de vanguarda perguntou:
- Para que lado está a “terra firme”? Precisamos saber para salvar nossos semelhantes que vivem em uma embarcação. Logo a maresia corroerá a embarcação e eles serão lançados ao mar. Precisamos conduzir o navio à “terra firme” antes que o pior aconteça.
E a resposta que os nadadores receberam deixou-os estupefatos. A criatura que os recebeu lhes disse com pesar e voz amena:
- Não existe “terra firme” neste planeta.
- O que você está dizendo? Perguntou um dos nadadores.
- Há milênios que nós nadamos todos os mares deste planeta, nossos antepassados já mapearam todos os recantos e podemos assegurar que este é o planeta das águas. Não existe “terra firme”!
E agora? Pensaram os nadadores de vanguarda. Será o fim de nosso povo? Mas a criatura bondosa pediu que eles a acompanhassem e os levou ao grande salão dos espelhos das criaturas aquáticas. Diante do espelho cada nadador pode contemplar que havia mudado suas formas e que agora se pareciam mais com as criaturas aquáticas do que com aqueles que viviam no barco. Haviam se adaptado!
- Eis a resposta! Disse a criatura. – Aqui é “terra firme”, um lugar que só existe no terreno dos nossos corações. Pouco importa está sozinho no mar ou numa embarcação, tudo é e não é “terra firme”, depende apenas de como você se sente. No passado também tivemos que abandonar nossos barcos para buscar um lugar seguro. Nunca tínhamos visto “terra firme”, este era um anseio de nossos corações, e se nós ansiávamos, então acreditava-mos que deveria existir. E de fato existe, mas não da maneira que esperávamos.
- E na sua época alguns se recusaram a aprender a nadar? Perguntou um nadador.
- Sim! E estes são os vossos antepassados. Continuam criando embarcações onde são infelizes.
- Mas porque existem as embarcações?
- Existem porque vocês precisam delas. Ainda não se reconheceram como seres aquáticos, ainda não aprenderam a ser solidários se não forem obrigados a viverem juntos em uma mesma embarcação. As embarcações são necessárias enquanto ainda somos crianças e para termos a sensação de segurança necessária para aprender a nadar. Somos como um pássaro que precisa de seu ninho nas primeiras semanas de vida, mas se nos recusamos a voar, somos lançados de cima da árvore. Assim também, seus companheiros serão lançados ao mar se continuarem a se recusar a aprender a nadar. Respondeu a criatura.
- E o que devemos fazer? Perguntaram os nadadores que agora se pareciam com as criaturas aquáticas.
- Vocês chegaram até aqui por merecimento. Não precisam voltar se não quiserem, mas se amarem os seus de verdade, como nós nos amamos, vocês retornarão para ajudar àqueles que tem medo. “Terra firme” já está dentro de vocês. Não importa se o navio naufraga ou continua a perambular, o que importa são as pessoas que estão dentro dele. Não é pecado sair do navio, pecado é não amar. Porque quem tem “terra firme” em seu coração ama incondicionalmente, ainda que seja incompreendido e injuriado. Voltem e falem a verdade para os que estão no navio, falem onde encontrar de fato “terra firme” e que todas as embarcações serão um dia corroídas pelo tempo e pela maresia. Nada restará! Só estas palavras permanecerão. O navio ainda oferece algumas vantagens, é uma estrutura interessante onde as pessoas procuram abrigo e rumo. Se elas estão ali é porque procuram ou procuraram por “terra firme”. Pode ser que o ambiente do navio tenha corroído também a esperança deles, mas não deixem que morra a esperança. Não liguem para os tripulantes fanáticos que bravejam acusando-os de desertores. Eles são mais dignos de pena que qualquer outro que está no navio. Não é por eles que vocês ficarão, estes tripulantes serão todos lançados ao mar e serão os primeiros a se afogarem. Usem a estrutura do navio para reavivar a esperança e conduzir com amor os seus companheiros para pequenas excursões de natação. Um dia eles também farão viagens mais audazes e descobrirão a verdade. O pessimista senta e reclama das rachaduras no casco do navio. No fundo ele ainda está ressentido porque o navio não é o que ele queria que fosse.
Ele sonhava viajar num transatlântico seguro e tranquilamente, mas as embarcações são feitas imperfeitas justamente para que pereçam e sejamos lançados ao mar. Não devemos nos ressentir pelo navio precário. O navio pouco importa para quem se tornou uma criatura do mar. O navio é uma instância transitória mas que um dia será dispensável, a diferença é que estas embarcações são caminhos para nós mesmos e não para uma terra prometida. Se seu povo tem navios é porque precisa de navios, então usem os navios para que eles aprendam a nadar. Não se preocupem com os mais renitentes, eles serão lançados inevitavelmente ao mar. Vocês convidarão a muitos, mas poucos estarão dispostos a nadar por si mesmos.
Depois destas palavras os nadadores voltaram ao barco para ajudar aqueles que lá ficaram. Como havia sido previsto, eles foram desacreditados, injuriados e acusados de heresia. Quando o barco afundou escaparam aqueles que sabiam nadar e quando a tragédia acontecia, os tripulantes agarravam-se ao navio recusando-se a nadar e gritavam para os que pulavam ao mar: - Hereges! Hereges! Hereges! E sucumbiram porque se recusavam a se libertar do navio.

Breno Henrique de Sousa - Membro da Federação Espírita Paraibana e do Núcleo Espírita Eurípedes Barsanulfo.